O fim da picada
O ano tem doze meses. E sei, que pelo menos, uma vez por ano, em um desses meses eu tenho um encontro marcado com uma senhora magra e pontiaguda, que me espeta e me cospe alguma coisa que eu não sei identificar. Só sei que me dá dor e sono. É a minha vacinação de cada ano, que caso eu morda alguém, minha mãe apresenta a minha carteira de vacinação, como um nada consta do PIS/PASEP.
Esse ano o encontro me pegou desprevinida. Geralmente, é sempre um ritual de: pega a coleira, depois pega a Lily e o Floc e, por fim, o carro e uma longa viagem de 20 minutos até a clínica veterinária, onde faço questão de deixar a minha marca registrada de uma maneira sólida. Nós, cães, fazemos xixi onde temos vontade. Mas, já o número 2, exige uma intimidade a mais com o lugar. Eu, descarada que sou, trato logo de deixar as coisas do meu jeito: Parque cremerie, jardins do Museu Imperial, sala de espera do dr. bonitão que o digam.
Dessa vez, numa pacífica manhã de novembro, fui surpreendida por um homem de jaleco branco que procurava a Tia Jacira, a felina. Sabe, as coisas têm sido bem difíceis para ela. Um fungo resolveu fazer uma mansão no nariz dela. Resultado, a tia respira com dificuldade. O jaleco branco a examinou e ficou calado. Acho que era porque estava interessado em perfurar duas vezes o meu tecido adiposo e ainda rir e falar que eu sou uma graça. Me furando duas vezes, o mínimo que ele poderia falar era isso, né?
Senti pelo Floc. O bicho anda tão magrinho. Depois da vacina, passou dois dias sem poder subir na cama ou no sofá. Locomovia-se como se fosse um velhinho . No entanto, rapidinho ele sairia dali e nós estaríamos brincando. Uma coisa que nos chocou foi a forma abrupta como a Tia Jacira foi embora. Só me restou perguntar: será que a próxima seria eu?
Colocaram-na dentro de uma caixa de madeira com uns furinhos, passaram o trinco e deram para o homem de branco levar. Será que era algum tipo de negociação? O que a mamãe ganharia em troca? Acredito que não deve se ter muita coisa em troca quando se trata de uma felina highlander que tem doença de roseira. Foi triste. Ali, toda a realeza e pompa da tia Jacira cairam por terra em miados desesperados pedindo socorro. Tive medo que a mamãe pudesse fazer isso comigo num futuro próximo.
A casa ficou vazia e silenciosa. Não tinha mais o funga-funga da tia. Parecia que não era nem antirabica e nem octupla, e sim um boa noite cinderela. Dormimos o dia inteiro. Acordava e dava uma volta pela casa, caso a Tia Jacira resolvesse voltar. Nunca se sabe o que se passa na cabeça de um gato, muito menos quando se trata da jóia da família, que já passou por várias gerações.
Dois dias depois, o mesmo carro que levou a Tia reaparece. Mas agora a caixa de madeira não foi entregue pelo homem de jaleco branco, mas pelo homem de uniforme azul. Ela chegou como se fosse uma entrega de pizza. Chegou, vimos a embalagem, sentimos o cheiro e nem vimos mais a cor. Ela sumiu pelo jardim. Não sentiu frio e nem teve fome. Não fez barulho. Não fez nada. Parecia que estava magoada com a gente. Não estava afim de receber visitas.









